sábado, 21 de junho de 2014

O Mistério da Estrada de Sintra (Resenha - Clube do Livro Março/Abril)

Suspense, mistério, romance, drama psicológico e até uma pitada de História. Para quem gosta desses temperos em suas leituras, a combinação então, será de fato fantástica. 
Tudo gira em torno de um assassinato, cuja vítima encontra-se em uma casa para onde são levados dois amigos, sendo um deles médico e sendo esse o motivo de sua presença no local do crime. A partir daí a história começa a se desenvolver de uma forma que aparenta o tecer de uma teia. 
Através das cartas dos supostos envolvidos ao jornal “Diário de Notícias”, toda a história é contada e seus pedaços preenchidos sob a visão de quem participou da trama. 
Basicamente a obra se divide em três partes. Na primeira, apresenta-se o crime sobre o qual paira o mistério de sua autoria. Na segunda parte temos as aventuras e desventuras de um grupo de viajantes (que mesmo tendo uma narrativa com contornos mais românticos, gênero do qual eu não sou muito fã, apresenta uma importância enorme para que possamos entender o fechamento da trama). Por fim, na terceira parte, começamos a dar conta de depoimentos e elucidações que nos levam a saber o porquê do ocorrido e como o fato se sucedeu. 
O livro é gostoso de ler, a história é intrigante, a gente sempre fica esperando o que virá depois e eu gosto muito disso quando leio uma obra; porém, alguns personagens (que se identificam apenas com suas iniciais) e as datas (pois tenho muito problema com elas) deixaram alguns trechos da obra um pouco confusos para mim, mas é uma história muito boa e que vale muito a pena ser lida. Meu primeiro Eça de Queirós... E eu recomendo!!! 

Curiosidades:

- O livro foi adaptado para o cinema no ano de 2007 pelo diretor Jorge Paixão da Costa.

- Na edição que eu li, logo no início, há uma carta dos autores Eça de Queirós e Ramalho Ortigão ao editor do livro, cuja terceira edição estava sendo lançada. Nessa carta os autores se referem ao seu romance da seguinte forma: “... ele é execrável; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu pior inimigo, um livro igual. Porque nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar.” Isso, pelo fato de ser bem diferente do estilo que seguiram e desenvolveram com o tempo.
No entanto, o romance caiu no gosto da população, tendo muita gente lido os fatos no “Diário de Notícias” e mesmo assim adquirido a obra quando lançada; obra esta que sobreviveu até hoje encantando a nossa curiosidade e matando a nossa fome de leitores de forma muito competente (minha opinião).

Trechos do livro que me tocaram:

Não consegui lembrar, após a leitura, de todos os trechos que mexeram comigo, mas consegui salvar na memória três deles, que transcrevo abaixo. 

“Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do sol.”

“Mil coisas choravam dentro em mim. Sofria, sobretudo, o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reage sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.”

“... Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão, porventura, fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz. Coitados!... Os passos daquele que ainda hoje talvez se despediu de vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele! Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontramos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, enquanto alguém te espera vivo no mundo.” (Relato do Sr. F. retratando a tristeza do pensamento que lhe impôs a presença do cadáver debaixo do mesmo teto em que era obrigado a permanecer). Palavras fortes que nos levam a pensar na crueldade da morte, na agonia de imaginar uma pessoa querida lhe sendo arrancada sem que nada se possa fazer a respeito, no desespero de imaginar essa falta de notícias. Pensei na falsa alegria e esperança de quem espera sem saber e na angustiada solidão de quem pressente o pior... 

Dica: Para quem quiser assistir ao filme após a leitura do livro, pode encontrá-lo no You Tube (o filme está em Português de Portugal, mas dá para entender perfeitamente).

Um comentário:

Nara disse...

Amei sua resenha! Não sei se tenho coragem de me aventurar em um 'Eça de Queirós' agora. :o/
Mas tu sabe... só vejo o filme depois que ler o livro! :D Sou doida varrida! :D
Estou atrasadíssima com as minhas leituras, e ainda arrumando mais. Pode? :D

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